Tu vens querendo me enveredar! - pensei, apos uma longa olhada àqueles olhos negros e brilhantes que se punham à minha frente, justamente atrás de duas adoraveis janelas oculadas, com hastes que repousavam suavemente sobre um par delicado de orelhas.
Um sutil "pôr-à-parte" de corpos recém abraçados. O cheiro ameno e a afetuosidade disseminavam-se em partículas praticamente impalpáveis - exceto pelas evidências: um sorriso tímido, denunciado pela leve concavidade.
Era um nome que, em meu imaginario, fazia parte de uma lista marginal de nomes, ou seja, nao era nem um nome comum a ponto de se chamar Rafael, nem um nome incomum a ponto de Crisoprasso. O nome estava à margem disso. Era algo tipo Johnatta ou Tomas. Não era estranho, nem comum - pra mim, em meu cotidiano. E eu tinha medo da vertigem que isso me causava, mas, mesmo assim, sentia-me bem aos arredores.
Medo de subir, gente Medo de cair, gente Medo de vertigem Quem não tem? (só a bailarina é que não tem!)* *ciranda da bailarina - chico buarque e edu lobo - o grande circo mistico
após meses de treino em meu musculo cardíaco. Sístoles pra cá, diástoles pra lá e eis que meti-me em ATAQUE CARDÍACO no meio, médio, indelével e saudoso meio, onde repousa uma metade estranha. E a metade estranha é um dom, assim como saber curtir o sereno, e o veneno,e o falso vento que a anáfora alimenta. Por isso eu digo: a metade estranha é um dom, assim como o eterno retorno é um carmanesse imenso colosso, não?! Mareana
No desmundo, um raro gosto equilibrado, atemporal, exorbitante, mas do tipo que, num paradoxo, corrompe a cadência de qualquer consorte. Presumo contrária ao senso comum.
Agudeza de espírito, humor efêmero, acidez pessoal. E digo mais: é de têmpera entusiástica que inflama e incita - sem gastos.
Desatina escondido - que é pra ninguém ver - e ainda inventa passos líricos e concede ao corpo movimentos rítmicos, compassados, quando tangem bandolins, bongôs, flautas e clarins; bemóis e sustenidos.
Soluça de vez em quando - escapismo assumido - pra desafogar-se das destrezas morais. Besunta-se com mel uma vez por mês - que é pra mode nutrir-se ao menos de alguma volúpia. Mas enfim, tudo isso é medo de gracejos e escárnios.
E por fim, morre de vontade de encontrar alguém com quem possa cantar francamente "Estrada do sol", como Dolores Duran e Tom Jobim:
frequencia fruição rascunho do infinito da terça parte do agora
tino abrindo francamente e tilintando revelando tudo decretando falencia
desabafo histerogeneo sorriso conciso ar histérico
vertigem tudo posso justa pugna trégua e finalmente revés desbarato dispara te e para te até
Mareana
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
A melhor parte de mim convivia com ele, quase que diariamente, embora vivessemos em esferas existenciais completamente diferentes. Ele era bom em cor, e eu em composição, eu lia Sartre e ele, Camus. A única área de interseção que havia entre essas esferas era o gosto por Quincy Jones.
Na saída, ele sempre me pedia um cigarro. Tudo fluía como se ele fosse - pra mim - um outro lugar psíquico, uníssono com todo o platonismo envolvido nisso. E nem Lacan, nem mesmo Freud, disso me convenceria a não ser que eu largasse de vez toda a bagagem psicológica, impostora e prejudicial que eu estava carregando. Foi aí que Rompi com o mundo, queimei meus navios... meu sangue errou de veia e se perdeu...*
Adelardo, certa vez, contou a Domitila que era um Don Ruan apaixonado - só se fosse um Don Ruan desvairado, pensei, pois dizia isso a todas! Depois disso ficou andando de um lado pr'outro da sala como se fugisse da consciência.Enquanto ela - mais sonsa que eu e Macabéa* juntas - sonhava com altos deltas de felicidade, depois ficava no quarto passando mal de vertigem, sem falar que, de vez em quando, simulava espasmos para ser mimada.Contraía os músculos da face frenéticamente numa insana e ruídosa gargalhada, como se estivesse tresvairando - e na verdade estava. Sonhava em vestir o casaquinho de banton de Ana Cristina César por cima de um vestidinho de tafetá nada censurável (feito por sua avó) e, em tardes primaverís, tomar chá de narcisos silvestres com biscoitinhos de superego, galanteada por Adelardo. Até o dia em que Belline, num súbito acesso inconteste, cortou-lhe todoo arabesco da pisicopatia - numa medida exata entre o acaso e a conjuntura. * Personagem de "A Hora da Estrela"; Clarice Lispector