segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Pôr-à-parte


Tu vens querendo me enveredar!
- pensei, apos uma longa olhada àqueles olhos negros e brilhantes
que se punham à minha frente, justamente atrás de duas adoraveis janelas
oculadas, com hastes que repousavam suavemente sobre um par delicado de orelhas.

Um sutil "pôr-à-parte" de corpos recém abraçados.
O cheiro ameno e a afetuosidade disseminavam-se em partículas
praticamente impalpáveis - exceto pelas evidências:
um sorriso tímido, denunciado pela leve concavidade.

Mareana

sábado, 19 de setembro de 2009

Lista marginal de nomes





Era um nome que, em meu imaginario, fazia parte de uma lista marginal de nomes, ou seja, nao era nem um nome comum a ponto de se chamar Rafael, nem um nome incomum a ponto de Crisoprasso. O nome estava à margem disso.
Era algo tipo Johnatta ou Tomas. Não era estranho, nem comum - pra mim, em meu cotidiano.
E eu tinha medo da vertigem que isso me causava, mas, mesmo assim, sentia-me bem aos arredores.

Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem?
(só a bailarina é que não tem!)*

*ciranda da bailarina - chico buarque e edu lobo - o grande circo mistico

mareana

sábado, 29 de agosto de 2009

Parábola

Perdi-me em parábola
após meses de treino em meu musculo cardíaco.
Sístoles pra cá, diástoles pra lá
e eis que meti-me em ATAQUE CARDÍACO
no meio, médio, indelével e saudoso meio,
onde repousa uma metade estranha.
E a metade estranha é um dom,
assim como saber curtir o sereno,
e o veneno, e o falso vento
que a anáfora alimenta.
Por isso eu digo:
a metade estranha é um dom,
assim como o eterno retorno
é um carma nesse imenso colosso, não?!
Mareana

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

No Desmundo


Edouard Manet - A Bar at the Folies-Bergère

No desmundo, um raro gosto equilibrado, atemporal, exorbitante, mas do tipo que, num paradoxo, corrompe a cadência de qualquer consorte. Presumo contrária ao senso comum.

Agudeza de espírito, humor efêmero, acidez pessoal. E digo mais: é de têmpera entusiástica que inflama e incita - sem gastos.

Desatina escondido - que é pra ninguém ver - e ainda inventa passos líricos e concede ao corpo movimentos rítmicos, compassados, quando tangem bandolins, bongôs, flautas e clarins; bemóis e sustenidos.

Soluça de vez em quando - escapismo assumido - pra desafogar-se das destrezas morais. Besunta-se com mel uma vez por mês - que é pra mode nutrir-se ao menos de alguma volúpia. Mas enfim, tudo isso é medo de gracejos e escárnios.

E por fim, morre de vontade de encontrar alguém com quem possa cantar francamente "Estrada do sol", como Dolores Duran e Tom Jobim:


"... Quero que você

Me dê a mão

Vamos sair por aí

Sem pensar

No que foi que sonhei

Que chorei, que sofri

Pois a nova manhã

Já me fez esquecer

Me dê a mão

Vamos sair pra ver o sol."

Mareana

domingo, 21 de dezembro de 2008

Revérbero



minutos
haveres
sorriso conciso
ar histérico

frequencia
fruição
rascunho do infinito
da terça parte do agora

tino
abrindo francamente
e tilintando
revelando tudo
decretando falencia

desabafo histerogeneo
sorriso conciso
ar histérico

vertigem
tudo posso
justa pugna
trégua
e finalmente
revés desbarato
dispara te
e para te
até

Mareana

segunda-feira, 17 de novembro de 2008




A melhor parte de mim convivia com ele,
quase que diariamente, embora vivessemos
em esferas existenciais completamente diferentes.

Ele era bom em cor, e eu em composição,
eu lia Sartre e ele, Camus.
A única área de interseção que havia entre essas esferas
era o gosto por Quincy Jones.


Na saída, ele sempre me pedia um cigarro.

Tudo fluía como se ele fosse - pra mim -
um outro lugar psíquico,
uníssono com todo o platonismo envolvido nisso.
E nem Lacan, nem mesmo Freud, disso me convenceria
a não ser que eu largasse de vez toda a bagagem psicológica,
impostora e prejudicial que eu estava carregando.

Foi aí que
Rompi com o mundo, queimei meus navios...
meu sangue errou de veia e
se perdeu...*



*Trecho da musica "Eu Te Amo", Chico Buarque


Mareana

domingo, 16 de novembro de 2008

Domitila



Adelardo, certa vez, contou a Domitila que era um Don Ruan apaixonado - só se fosse um Don Ruan desvairado, pensei, pois dizia isso a todas! Depois disso ficou andando de um lado pr'outro da sala como se fugisse da consciência. Enquanto ela - mais sonsa que eu e Macabéa* juntas - sonhava com altos deltas de felicidade, depois ficava no quarto passando mal de vertigem, sem falar que, de vez em quando, simulava espasmos para ser mimada. Contraía os músculos da face frenéticamente numa insana e ruídosa gargalhada, como se estivesse tresvairando - e na verdade estava.
Sonhava em vestir o casaquinho de banton de Ana Cristina César por cima de um vestidinho de tafetá nada censurável (feito por sua avó) e, em tardes primaverís, tomar chá de narcisos silvestres com biscoitinhos de superego, galanteada por Adelardo. Até o dia em que Belline, num súbito acesso inconteste,
cortou-lhe todo o arabesco da pisicopatia -
numa medida exata entre o acaso e a conjuntura.

* Personagem de "A Hora da Estrela"; Clarice Lispector



Mareana